Encarnação de Cristo e o erro de Karl Barth.


Já que a discussão sobre Liberalismo e Neo-ortoxia teológica está em alta, resolvi postar um texto que fiz por ocasião de um debate na internet sobre este assunto. Tudo isso ocorreu devido a um artigo escrito pelo Dr. Augustus Nicodemus Lopes em seu blog. Começo com um pedaço do texto que suscitou o debate e depois comento.

"Restou o neo-ortodoxo. No caso, este conhecido é da linha de Karl Barth. Ele diz que acredita na concepção miraculosa de Cristo, como o famoso teólogo suíço, e portanto tem motivos para celebrar o Natal. Todavia, eu confesso que nunca entendi direito o que Barth quis dizer ao afirmar acreditar no nascimento virginal. Para ele, este nascimento virginal indica o caráter sobrenatural de Jesus, é um sinal do julgamento de Deus sobre a raça humana, pois a mesma não pode produzir seu próprio Redentor e também um sinal de que Jesus Cristo é um novo começo (Church Dogmatics, I, 2, 196, 181, 177, 188, 191). Mas, ele desconsidera um conseqüência importante do nascimento virginal, que é a impecabilidade de Cristo. Barth afirmava que Cristo assumiu uma natureza pecaminosa, decaída, corruptível, e que portanto, não era perfeito e sem pecado (Church Dogmatics, I, 2, 154). Por causa disto, e porque li em algum lugar que Barth jamais bebericou vinho em sua vida pois preferia cerveja (veja os comentários a este post), é que também não posso dar o Porto ao conhecido que é bartiano."(Rev. Augustus Nicodemus - www.tempora-mores.blogspot.com dia 14/12/2009)

Karl Barth escorregou em muitos erros, que o afasta totalmente da ortodoxia. Este exposto no artigo de Nicodemus foi mais um.
Os seus seguidores erram fatalmente ao querer defendê-lo. Simplesmente porque ainda não entenderam ou mesmo rejeitaram o ensino bíblico sobre a natureza humana. Cristo, ao tornar-se humano, não implica necessariamente tornar-se um ser humano com a ´´natureza pecaminosa, decaída, corruptível``. Justamente porque (e é neste ponto onde acontece uma falha no pensamento de Barth ou qualquer um que tenha este pensamento) isto não faz parte do estado original da natureza humana. A cosmovisão bíblica tem como base a criação de Deus. Existem duas realidades: A realidade divina e a realidade criada. Dentro da segunda está a humanidade. O homem não foi criado com uma ´´natureza pecaminosa, decaída, corruptível``. Tudo isso é efeito da ´´queda adâmica``. O homem foi criado sem pecado e sem nenhuma maldade ou efeito pecaminoso qualquer que seja. Ele foi criado perfeito (aos olhos do próprio Deus o homem era ´´muito bom``)

A Bíblia fala em ´´renovação``, ´´restauração`` justamente porque o mundo e os seres humanos foram criados perfeitos mas por causa da ´´queda``, precisam de restauração completa (isto implica obviamente em dizer tanto física como espiritual). Não existe lógica alguma na argumentação de que o homem só pode ser tentado(ou mesmo Jesus Cristo) se ele estiver sobre a condição caída e pecaminosa. Ora Adão foi tentado mesmo em estado original, perfeito e sem NENHUM PECADO. Não havia nenhum efeito miserável do pecado sobre a raça humana(como agora há em nós) para que ele pudesse ser TENTADO. Cristo diferentemente de Adão não pecou e nem cedeu a tentação de Satanás. Então não é uma condição sine qua non ser pecador para poder ser tentado ou passar por tentações, e muito menos é uma condição sine qua non participar da natureza pecaminosa para se tornar humano. Até mesmo porque esta não é uma condição onde apenas os seres humanos participam, mas tudo que foi criado participa desta condição miserável.

Portanto Cristo pode muito bem assumir a realidade humana, sem necessariamente ter a ´´natureza pecaminosa, decaída, corruptível``, até mesmo porque como já foi mostrado, isso não faz parte originalmente da condição humana, mas sim isto foi herdado da condição adâmica PÓS-QUEDA. E é neste ponto onde Barth não entendeu ou rejeitou o que significa o fato do nascimento milagroso e virginal de Cristo. Ele não herdou a natureza escrava do pecado dos seus pais, e portanto não partilha desta natureza corrupta.


Cito Augustus Nicodemus neste ponto:

´´No caso de Jesus, a ação do Espírito Santo sobre Maria foi em duas direções: (1) a fecundação de um óvulo dela sem a participação masculina e (2) impedindo que a corrupção da natureza de Maria fosse transmitida ao novo ser. Desta forma, Jesus nasceu verdadeiro homem mas sem a corrupção da natureza humana da qual partilham todos os demais seres humanos.``

Barth não considerou a implicação da total depravação humana. Se Jesus tivesse herdado a natureza pecaminosa ele necessitaria também ser regenerado para obedecer perfeitamente ao Pai. A fuga de Barth, pelo menos me parece ser, é que a natureza divina pelo espírito elevou a natureza pecaminosa para não pecar, um absurdo teológico sem nenhuma base bíblica.

Este desvio está na citação que Barth faz de Edward Irving:

´´Este ponto da questão é simplesmente este: se a carne de Cristo teve a graça da impecabilidade e da incorruptibilidade por sua própria natureza ou pela habitação do Espírito Santo, eu digo o último... A humanidade que estava caída foi assumida por sua pessoa divina, a fim de provar a graça e o poder de Deus em redimi-la". Assim, sua humanidade foi sem culpa, mas com tudo que pertence ao homem, e foi "realizada como uma fortaleza de pureza imaculada pela divindade que lhe estava dentro``.


A implicação é que Cristo foi salvo do pecado pela ´´habitação do Espírito Santo``.E o pior de tudo, o ensino de que houve a salvação da natureza humana de Cristo em não pecar pela sua natureza divina. Uma heresia grotesca, a natureza humana de Cristo não é uma parte que precisa de salvação, ela é o próprio Cristo e não algo impessoal. Por isso é perfeita e está ENVOLVIDA EM TODO O PROCESSO DE SALVAÇÃO, e não precisa repito de nenhuma salvação.

É importante dizer que a CFW mostra no Capítulo 8 que ´´O Filho de Deus...tomou sobre si a natureza humana com todas as suas propriedades essenciais e efermidades comuns, contudo sem pecado``

Isto está em perfeita consonância com Hb 4.15: ´´Porque não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.``(RA)

É importante comentar que após ser dito pelo texto sagrado´´à nossa semelhança`` , é acrescentado ´´mas sem pecado``. A Bíblia é bastante clara ao fazer este contraste entre nós e Cristo. Não deixando nenhum subterfúgio para os que declaram que Cristo participa conosco da natureza pecaminosa escrava do pecado. Na verdade é impossível dizer que podemos ter a natureza pecaminosa e não termos pecado. O pecado é uma expressão da nossa natureza pecaminosa que é inimiga de Deus e que necessita de regeneração.

Por fim, vejam algumas coisas que Barth escreveu, que afastam sua teologia da Verdade.

´´Os profetas e apóstolos como tal, mesmo no ofício deles,… foram homens históricos reais como nós somos, e … realmente culpados de erros na palavra falada e escrita deles (Church Dogmatics, I, 2, 528-529).

Como toda literatura antiga, o Antigo e Novo Testamento não conhece nada da distinção de fato e valor… entre história de um lado e saga e lenda de outro (I, 2, 509).

A vulnerabilidade da Bíblia, isto é, sua capacidade de errar, também se estende ao seu conteúdo religioso ou teológico (I, 1,509).

Em comum com a história da criação… a história da ressurreição tem sido considerada… como “saga” ou “lenda”. A morte de Jesus Cristo pode certamente ser considerada como história no sentido moderno, mas não a ressurreição (IV, 1, 336).

A “lenda” de encontrar o túmulo vazio não é ela mesma e como tal a atestação de Jesus Cristo como ele se mostrou vivo após sua morte. Ela está subordinada a essa atestação. Uma pode ser tão pouco verificada “historicamente” como a outra. Certamente o túmulo vazio não pode servir como uma prova “histórica” (IV, 1, 341).``

Devemos aprender a ouvir o que a Bíblia diz acerca dela mesmo, e interpretar os fatos narrados pela escritura como a Ressurreição, do modo como a própria Bíblia interpreta para que não venhamos a cair em heresias tão perniciosas.

Solus Christus!

3 comentários:

  1. Não só a Bíblia comprova a filiação eterna de Deus Filho como (Jo 10,9)"Eu e Pai somos UM;(Jo 14,9"e quem vê a mim,vê o Pai" é tão forte esta crença da filiação eterna da Igreja Cristã,que os tetemunhos que seguem, dos Pais da Igreja são comprobátorios: -a)Já no final do primeiro século, o Apóstolo João, saudando diz:(2Jo,3)a graça,a misericórdia e a paz,da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, o Filho do pai, serão conosco em verdade e amor -b)Justino Mártir(C.100-165)"Jesus Cristo é o único Filho próprio que foi gerado por Deus,sendo seu verbo e primogênito,e poder,e,tornando-se homem de acordo com sua vontade,Ele nos ensinou estas coisas para conversão e restauração da raça humana"(First apology 23[d.C.151]. -c)Concílio de Nicéia(325 a.C.)"Cremos...em um só Senhor Jesus Cristo,o Filho de Deus,o único gerado do Pai,ou seja,da substância do Pai,Deus de Deus,Luz de Luz,verdadeiro Deus de verdadero Deus gerado,não feito..."(the Creed of nicaea[d.C.325]). -d) Concílio de ConstantinoplaII(553 a.C.)"Se alguém não confessa que há duas gerações da Palavra de Deus,uma do Pai desde antes de todas as eras,sem tempo e incorporeamente,a outra nos últimos dias quando a mesma desceu do céu e foi encarnada...que seja anátema"(Anathemas Concerning the Three Chapters,cânone 2 [d.C.553]).

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  2. Não só a Bíblia comprova a filiação eterna de Deus Filho como (Jo 10,9)"Eu e Pai somos UM;(Jo 14,9"e quem vê a mim,vê o Pai" é tão forte esta crença da filiação eterna da Igreja Cristã,que os tetemunhos que seguem, dos Pais da Igreja são comprobátorios: a) Já no final do primeiro século, o Apóstolo João, saudando diz:(2Jo,3)a graça,a misericórdia e a paz,da parte de Deus Pai e de Jesus Cristo, o Filho do pai, serão conosco em verdade e amor b) Justino Mártir(C.100-165)"Jesus Cristo é o único Filho próprio que foi gerado por Deus,sendo seu verbo e primogênito,e poder,e,tornando-se homem de acordo com sua vontade,Ele nos ensinou estas coisas para conversão e restauração da raça humana"(First apology 23[d.C.151]. c) Concílio de Nicéia(325 a.C.)"Cremos...em um só Senhor Jesus Cristo,o Filho de Deus,o único gerado do Pai,ou seja,da substância do Pai,Deus de Deus,Luz de Luz,verdadeiro Deus de verdadero Deus gerado,não feito..."(the Creed of nicaea[d.C.325]). d) Concílio de ConstantinoplaII(553 a.C.)"Se alguém não confessa que há duas gerações da Palavra de Deus,uma do Pai desde antes de todas as eras,sem tempo e incorporeamente,a outra nos últimos dias quando a mesma desceu do céu e foi encarnada...que seja anátema"(Anathemas Concerning the Three Chapters,cânone 2 [d.C.553]).

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  3. Esse Karl Barth deu muita bola fora... é impressionante. É na cristologia, na soteriologia...

    Abraço, meu nobre!
    Edson

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